Descubra como a opinião algorítmica funciona

Você já reparou que basta pesquisar um tênis, assistir a alguns vídeos sobre um tema ou interagir com determinado assunto para que ele passe a aparecer em todos os lugares? Essa sensação não é coincidência. Ela faz parte da lógica da opinião algorítmica, um conceito que ajuda a explicar como os sistemas digitais organizam aquilo que vemos, consumimos e, muitas vezes, utilizamos para formar nossas percepções sobre o mundo.

Muito além de recomendar produtos ou vídeos, os sistemas baseados em algoritmo passaram a desempenhar um papel importante na mediação das informações que chegam até nós. Em uma sociedade conectada, entender esse processo é essencial para desenvolver uma relação mais crítica com as plataformas digitais.

O que é opinião algorítmica?

A opinião algorítmica é um conceito desenvolvido pelo pesquisador Emilio Alves DON em sua tese de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). A ideia parte de uma reflexão simples: antes de formar uma opinião sobre qualquer assunto, precisamos entrar em contato com informações sobre ele.

O ponto central é que esse contato deixou de depender apenas dos meios tradicionais de comunicação. Hoje, plataformas como redes sociais, mecanismos de busca e aplicativos utilizam sistemas automatizados para selecionar, ordenar e recomendar conteúdos de acordo com nossos comportamentos.

Isso significa que diferentes pessoas podem receber versões completamente distintas da realidade, mesmo utilizando a mesma plataforma.

Como um algoritmo escolhe o que aparece para você?

Os algoritmos analisam uma enorme quantidade de sinais deixados durante a navegação. Eles observam, por exemplo:

  • quais conteúdos você curte;
  • quanto tempo permanece em um vídeo;
  • quais perfis segue;
  • o que pesquisa;
  • quais publicações comenta;
  • os assuntos que costuma compartilhar.

Com essas informações, o sistema identifica padrões e tenta prever aquilo que tem maior chance de prender sua atenção.

Quanto maior o engajamento, maior tende a ser a distribuição daquele conteúdo.

Esse processo cria uma experiência altamente personalizada, mas também modifica a maneira como diferentes pessoas entram em contato com notícias, debates e acontecimentos importantes.

A mudança na forma como conhecemos o mundo

O jornalista Walter Lippmann já defendia, no início do século XX, que ninguém conhece diretamente toda a realidade ao seu redor. Nossa compreensão do mundo depende de algum tipo de mediação.

Durante décadas, essa mediação foi feita principalmente por jornais, revistas, rádio e televisão. Embora existissem escolhas editoriais, milhões de pessoas consumiam, em grande parte, o mesmo conjunto de notícias.

Hoje o cenário é completamente diferente.

Cada usuário recebe uma seleção personalizada de conteúdos construída continuamente pelos algoritmos das plataformas digitais.

Em outras palavras, não existe mais uma única “janela” para o mundo. Existem milhões delas.

Quando cada pessoa vive em um universo diferente

Imagine duas pessoas abrindo o aplicativo da mesma rede social no mesmo instante.

Uma encontra vídeos sobre futebol, investimentos e tecnologia.

A outra recebe conteúdos sobre maquiagem, culinária e política.

Nenhuma delas escolheu manualmente cada publicação.

Foi o sistema que organizou aquela experiência com base no histórico de comportamento de cada usuário.

Esse é um dos aspectos mais importantes da opinião algorítmica: ela não determina exatamente o que pensamos, mas influencia fortemente quais informações chegam até nós antes mesmo de construirmos uma opinião.

A diferença entre influenciar e decidir

É comum imaginar que os algoritmos “controlam” as pessoas.

A realidade é mais complexa.

Os sistemas não implantam opiniões automaticamente na mente dos usuários. O que fazem é criar condições diferentes para que determinadas ideias tenham mais ou menos visibilidade.

Quando um assunto aparece repetidamente, ele tende a ocupar mais espaço na nossa atenção.

Quando outro praticamente desaparece do nosso feed, pode deixar de fazer parte do nosso repertório.

Essa seleção silenciosa altera o ambiente onde nossas opiniões são construídas.

O exemplo de Donald Trump

Um exercício interessante ajuda a compreender esse fenômeno.

Pergunte para qualquer grupo de pessoas o que elas pensam sobre Donald Trump.

É muito provável que quase todas tenham uma opinião formada.

Agora pergunte sobre outros líderes internacionais menos presentes nas redes sociais.

Muitas pessoas terão dificuldade para responder.

Isso não significa, necessariamente, que Trump seja mais importante do que todos os outros políticos do mundo.

Significa que seus conteúdos costumam gerar enorme engajamento.

Mais comentários.

Mais compartilhamentos.

Mais reações.

Mais tempo de permanência.

Os algoritmos identificam esse comportamento e tendem a distribuir ainda mais esse tipo de conteúdo.

O resultado é um ciclo de visibilidade que reforça determinados temas enquanto reduz a exposição a outros.

A pesquisa que deu origem ao conceito

A opinião algorítmica foi investigada por Emilio Alves DON durante sua pesquisa de doutorado intitulada “Opinião algorítmica: a mediação da Inteligência Artificial na opinião de jovens universitários”.

O estudo envolveu 1.306 estudantes de 17 instituições de ensino superior do estado de São Paulo.

Entre os resultados observados, chamou atenção a percepção dos próprios estudantes de que os conteúdos apresentados pelas plataformas estavam diretamente relacionados aos seus interesses e comportamentos.

Ao comparar a aba “Explorar” do Instagram ou o “Para Você” do TikTok entre diferentes alunos, era possível perceber realidades completamente distintas.

Cada tela mostrava um universo próprio.

Cada recomendação refletia hábitos específicos.

Cada experiência era única.

O paradoxo das plataformas digitais

Existe uma contradição interessante nesse processo.

A maioria das pessoas sabe que:

  • os algoritmos existem;
  • as plataformas coletam dados;
  • os conteúdos são personalizados;
  • há interesses comerciais envolvidos.

Mesmo assim, continuamos utilizando esses serviços diariamente.

Rolamos a tela.

Assistimos ao próximo vídeo.

Abrimos novamente o aplicativo poucos minutos depois.

Essa relação foi discutida na pesquisa por meio da ideia de “cinismo esclarecido”: compreendemos que existe uma mediação algorítmica, mas seguimos profundamente inseridos nela.

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Entenda a importância por trás da opinião algorítmica. / Foto: Unsplash.

Por que isso importa para toda a sociedade?

O debate sobre opinião algorítmica vai muito além das redes sociais.

Ele envolve questões relacionadas à democracia, educação, consumo de informação, comportamento e cidadania digital.

Quando sistemas automatizados passam a organizar quais assuntos recebem mais destaque, eles também influenciam:

  • os temas presentes nas conversas;
  • os debates públicos;
  • as tendências culturais;
  • o consumo de notícias;
  • a percepção de relevância sobre acontecimentos.

Por isso, desenvolver pensamento crítico tornou-se uma habilidade tão importante quanto aprender a utilizar novas tecnologias.

Como desenvolver uma visão mais crítica

Não é possível abandonar completamente os algoritmos.

Eles fazem parte praticamente de toda experiência digital.

Mas algumas atitudes ajudam a ampliar nossa visão de mundo:

Diversifique suas fontes de informação

Consuma conteúdos produzidos por veículos, especialistas e criadores diferentes.

Questione recomendações automáticas

Nem tudo que aparece primeiro representa o conteúdo mais importante.

Pesquise além do feed

Buscar informações ativamente reduz a dependência das recomendações automáticas.

Entenda como funcionam os sistemas digitais

Quanto maior o conhecimento sobre algoritmos, maior a capacidade de interpretar criticamente aquilo que aparece na tela.

Se quiser entender melhor como esses sistemas são desenvolvidos, vale conferir nosso conteúdo sobre algoritmo.

O futuro da opinião na era da Inteligência Artificial

À medida que a Inteligência Artificial se torna mais sofisticada, a personalização tende a aumentar.

Isso traz benefícios importantes, como recomendações mais relevantes e experiências mais eficientes.

Ao mesmo tempo, amplia o desafio de compreender como essas escolhas automatizadas moldam nossa relação com a informação.

Nos próximos anos, temas como transparência algorítmica, ética em IA, responsabilidade das plataformas e educação digital deverão ocupar um espaço cada vez maior nas discussões acadêmicas, empresariais e sociais.

Mais do que tecnologia, uma nova forma de compreender o mundo

A opinião algorítmica não afirma que máquinas substituíram nossa capacidade de pensar. Ela mostra que vivemos em um ambiente onde algoritmos participam da seleção das informações que utilizamos para construir nossas interpretações sobre a realidade.

Compreender esse fenômeno é um passo importante para navegar de forma mais consciente pela internet, desenvolver senso crítico e perceber que nossa visão de mundo é influenciada tanto pelas escolhas que fazemos quanto pelas escolhas que os sistemas fazem por nós.

Para conhecer mais sobre as pesquisas de Emilio Alves DON e seus estudos sobre algoritmos, inteligência artificial e sociedade, visite emilioalvesdon.com.br.

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