A internet quântica promete mudar a maneira como ocorre a transmissão de informações entre computadores. Em vez de trabalhar apenas com bits tradicionais, ela utiliza princípios da física quântica para transportar estados quânticos. Isso abre possibilidades para comunicações mais seguras e novas formas de computação.
Porém, a tecnologia ainda está em desenvolvimento. Mesmo assim, redes quânticas já começaram a sair dos laboratórios. Testes realizados em diferentes países mostram que a infraestrutura necessária está avançando. No Brasil, por exemplo, pesquisadores trabalham com uma rede instalada em Recife.
Simultaneamente, projetos internacionais buscam aumentar as distâncias e melhorar a estabilidade das conexões. Mas o que exatamente é a internet quântica? E por que ela pode ser tão importante para o futuro da tecnologia?
O que é a internet quântica?
A internet quântica é uma proposta de rede que utiliza estados quânticos no intuito de transportar informações. Na internet convencional, os dados são representados por bits, que assumem os valores 0 ou 1 e podem ser copiados e retransmitidos.
Já na tecnologia quântica, o elemento fundamental é o qubit. Ou seja, diferentemente do bit tradicional, ele pode apresentar uma combinação de estados de acordo com propriedades da mecânica quântica.
Como a informação muda
Essa diferença transforma a lógica da comunicação. Não se pode tratar uma informação quântica como um pacote convencional. Quando o estado é medido, ele pode ser alterado ou destruído, impedindo uma simples operação de conferir, copiar e reenviar o conteúdo original.
Paralelamente, tal comportamento também cria uma característica importante de segurança: determinadas tentativas de observar estados quânticos podem deixar evidências de interferência.
Internet quântica não significa mais velocidade
Vale ressaltar que essa tecnologia não foi criada para deixar sites ou aplicativos mais rápidos. Sua principal diferença está na maneira como a informação é codificada, transmitida e protegida.
Na internet comum, um áudio é dividido em pacotes que podem ser retransmitidos caso sejam perdidos. Por sua vez, em uma rede quântica, o estado transmitido é extremamente delicado, e uma medição pode modificar a informação. Essa característica explica tanto o potencial quanto a complexidade da tecnologia.
Redes avançam junto com computadores quânticos
A infraestrutura também pode evoluir antes dos computadores quânticos. Dessa forma, a China já possui milhares de quilômetros de comunicação quântica voltada à segurança. Em Recife, uma rede de aproximadamente 7 km está instalada sob o asfalto desde 2023. O Instituto Quanta trabalha para conectá-la a um computador quântico fotônico de 10 qubits, mostrando como redes e máquinas quânticas podem avançar paralelamente.

Funcionamento da internet quântica
O funcionamento da internet quântica depende de diferentes elementos trabalhando em conjunto. Nesse sentido, o processo pode começar com um dispositivo capaz de produzir dois fótons emaranhados. Desse modo, uma partícula segue para um ponto da rede, enquanto a outra é enviada para outro local.
Memórias quânticas
É importante destacar que um dos desafios da internet quântica está na perda de fótons durante a transmissão. Quanto maior a distância percorrida pela fibra óptica, maior tende a ser a possibilidade de perda do sinal.
As memórias quânticas ajudam a contornar esse problema ao armazenar estados quânticos temporariamente. Logo, um trecho da rede pode aguardar até que o próximo esteja preparado para receber a informação. Outro conceito importante é a troca de emaranhamento, que permite conectar diferentes trechos e ampliar o alcance sem exigir que uma única partícula percorra toda a distância.
O papel do emaranhamento
Quando duas partículas estão emaranhadas, determinadas medições apresentam correlação entre si, mesmo quando estão separadas. Isso, porém, não permite enviar mensagens instantaneamente. Sendo assim, os resultados das medições são aleatórios, e a comunicação convencional continua necessária para comparar as informações por meio de um canal clássico.
Teletransporte quântico
O teletransporte quântico permite transferir o estado de um qubit para outro ponto usando emaranhamento e comunicação clássica. Não há transporte de matéria: o que é transferido é o estado quântico.
Em janeiro de 2026, Deutsche Telekom e Qunnect demonstraram teletransporte quântico por 30 km de fibra óptica em Berlim, utilizando a rede comercial da operadora. O teste representa um avanço na aplicação da tecnologia fora de ambientes exclusivamente laboratoriais.
O potencial de transformação da internet quântica
O potencial da internet quântica vai muito além de uma comunicação mais segura. A tecnologia pode funcionar como uma infraestrutura capaz de conectar computadores, sensores e outros sistemas quânticos.
Conexão entre computadores quânticos
Uma das possibilidades é conectar computadores quânticos diferentes. Em vez de depender de uma única máquina, equipamentos localizados em lugares distintos poderiam trabalhar de maneira coordenada.
Isso poderia ajudar a contornar uma das limitações atuais da computação quântica. Os computadores disponíveis ainda possuem quantidades restritas de qubits e enfrentam dificuldades de estabilidade.
Distribuição de chaves e computação cega
Mais uma aplicação envolve a distribuição quântica de chaves, conhecida como QKD. Em tal modelo, duas partes podem gerar chaves criptográficas compartilhadas. Uma tentativa de interceptação pode provocar alterações detectáveis no processo.
A internet quântica também pode viabilizar a chamada computação cega. Nesse cenário, um usuário poderia utilizar recursos de um computador quântico remoto sem revelar ao equipamento seus dados ou o cálculo que está sendo realizado.
Relógios e sensores quânticos
Os relógios atômicos também podem se beneficiar. Redes quânticas poderiam ajudar a sincronizar equipamentos extremamente precisos localizados em pontos diferentes. Esse recurso interessa a áreas que dependem de sincronização precisa. Sendo assim, entre elas estão: sistemas financeiros, redes de telecomunicações e tecnologias de navegação.
Paralelamente, outra possibilidade está relacionada aos sensores quânticos. Telescópios e detectores poderiam utilizar propriedades do emaranhamento para obter informações que seriam difíceis de alcançar com sensores trabalhando de maneira isolada.
Assim, a internet quântica pode se transformar em uma espécie de infraestrutura para uma nova geração de aplicações. Ela não substituiria apenas os meios atuais de comunicação. Também poderia conectar máquinas e dispositivos criados especificamente para operar com fenômenos quânticos.
Pontos de atenção sobre a internet quântica
Apesar das possibilidades, a internet quântica ainda enfrenta obstáculos importantes. Nesse sentido, a principal questão é que a tecnologia necessária para construir redes amplas ainda não está disponível em escala comercial.
Vantagens da tecnologia
Entre os benefícios está a possibilidade de utilizar princípios fundamentais da física para aumentar a segurança, ao invés de depender apenas da dificuldade matemática dos sistemas tradicionais.
Outra vantagem é o aproveitamento de fibras ópticas já instaladas, o que pode reduzir a necessidade de novas obras. Mecanismos de segurança quântica também podem oferecer proteção menos dependente do avanço dos computadores convencionais, algo relevante diante da evolução da computação quântica.
Alcance e transmissão
Por outro lado, os fótons podem ser perdidos durante a transmissão, dificultando conexões de longa distância. As taxas de transmissão também continuam baixas. Em uma demonstração da Qunnect com a Cisco, em fevereiro de 2026, foram produzidos cerca de 5.400 pares por hora, enquanto testes em laboratório ultrapassaram 1,7 milhão.
A diferença evidencia o desafio de transformar resultados experimentais em aplicações reais. Memórias quânticas e repetidores ainda estão em desenvolvimento e serão fundamentais para ampliar essas redes.
Segurança ainda exige cuidados
Os equipamentos também são sensíveis a calor, vibrações e interferências comuns em ambientes urbanos. Juntamente com isso, a QKD protege a distribuição de chaves criptográficas, mas não significa que todo o sistema esteja automaticamente seguro.
Ao mesmo tempo em que as redes quânticas não alcançam escala ampla, a criptografia pós-quântica, ou PQC, permanece uma alternativa importante. Ela utiliza algoritmos matemáticos desenvolvidos para resistir a possíveis ataques de computadores quânticos.
Contexto atual e possíveis próximos momentos da internet quântica
Os avanços registrados em 2026 mostram que a internet quântica começa a enfrentar um de seus maiores desafios: funcionar fora das condições controladas de um laboratório.
Testes em redes reais
Nos Estados Unidos, pesquisadores ligados ao NIST conseguiram distribuir fótons emaranhados por 62 km de fibra comercial entre Gaithersburg e a Universidade de Maryland. Parte da infraestrutura estava instalada em postes e exposta a condições urbanas, como vento e calor.
Já na China, uma equipe da Universidade de Ciência e Tecnologia da China manteve duas memórias quânticas emaranhadas a 420 km de distância. Em fevereiro, pesquisadores liderados por Jian-Wei Pan também preservaram o emaranhamento entre memórias separadas por 10 km de fibra durante 550 milissegundos, superando os 450 milissegundos necessários para estabelecer a conexão seguinte.
Brasil também participa
Por sua vez, em Recife, pesquisadores da UFPE e da UFRPE trabalham com protocolos utilizados em redes quânticas internacionais. Os testes avaliam o comportamento desses sistemas em condições reais, com a meta de ampliar a rede para cerca de 40 km e conectar parceiros do Porto Digital.
Satélites e repetidores quânticos
Vale ressaltar que os repetidores quânticos serão fundamentais para ampliar as redes sem destruir o emaranhamento. O espaço também pode ajudar: um enlace de QKD entre China e África do Sul chegou a 12.900 km com um microssatélite.
Mesmo com os avanços, a internet quântica provavelmente não substituirá a internet convencional no curto prazo. O cenário mais provável é uma arquitetura híbrida, combinando redes quânticas metropolitanas, satélites e infraestrutura tradicional. A tecnologia ainda é de longo prazo, mas os testes em redes comerciais, cidades e projetos espaciais mostram que ela começa a deixar de ser apenas uma hipótese.
*com uso de inteligência artificial

