A palavra “parassocial”, escolhida como a Palavra do Ano de 2025 pelo Dicionário Cambridge, ganhou destaque global e se tornou um dos conceitos mais comentados nas redes sociais, na mídia e em debates sobre cultura digital.
Mesmo assim, apesar de toda essa popularidade internacional, o termo permanece amplamente desconhecido no Brasil, onde poucas pessoas compreendem sua real definição e o contexto emocional e sociocultural por trás do fenômeno.
Conforme o mundo discute conexões unilaterais entre fãs, celebridades, influenciadores e até Inteligências Artificiais, o Brasil ainda está dando seus primeiros passos para entender o que significa viver uma relação desse tipo, e o que faz esse tema importar tanto.
Logo, neste conteúdo, explicaremos o que significa a palavra “parassocial” e também apresentaremos o motivo para ser o termo do ano. Em conjunto a isso, iremos pensar sobre o desconhecimento dele no Brasil, bem como listar pontos de atenção sobre o contexto do mesmo. Por último, elencaremos mais detalhes sobre a situação.
O que significa a palavra “parassocial”?
A palavra “parassocial” possui um histórico que é bem mais antigo do que muitas pessoas imaginam. Embora tenha viralizado digitalmente nos últimos anos, ela foi criada em 1956 pelos sociólogos Donald Horton e Richard Wohl, da Universidade de Chicago.
Nesse sentido, eles perceberam que telespectadores tratavam apresentadores de televisão como se fossem conhecidos íntimos (amigos, familiares ou pessoas próximas) mesmo sem qualquer relação real ou reciprocidade.
Tal percepção foi revolucionária. Na época, a televisão estava se tornando uma força cultural inédita, e Horton e Wohl identificaram que o público atribuía sentimentos e intimidade a figuras que nunca haviam encontrado pessoalmente. Esse fenômeno, chamado de “interação parassocial”, descrevia exatamente esse tipo de conexão unilateral.
Muito antes da TV, o fenômeno já existia
O estudo dos sociólogos não inaugurou o fenômeno, apenas lhe deu nome. Já no século 19, leitores desenvolviam vínculos emocionais com autores, criando um senso de proximidade baseado apenas no consumo da obra literária.
Sendo assim, os escritores eram tratados como confidentes, gurus ou amigos imaginários, mesmo sem nenhum contato direto. Dessa maneira, isso é algo que mostra que as relações parassociais acompanham a humanidade há muito tempo, mas só agora, com a internet, ganharam uma escala inédita.
O que significa “parassocial” hoje?
De acordo com o Cambridge, o termo, que é usado como adjetivo, descreve uma conexão totalmente unilateral: uma das partes sente intimidade, carinho, lealdade ou proximidade com alguém (ou algo) que não a conhece. Isso inclui:
- celebridades;
- influenciadores;
- personagens fictícios;
- streamers;
- podcasters;
- escritores;
- e, mais recentemente, IAs.
Em outras palavras, uma relação parassocial acontece quando alguém sente que conhece profundamente uma figura pública ou um sistema, mesmo sem contato real ou reciprocidade.
Do mundo acadêmico ao mainstream
Se antes a palavra circulava em pesquisas de psicologia, sociologia e comunicação, agora ela faz parte do vocabulário popular. Conversas sobre saúde mental, consumo de mídia, fandoms e limites emocionais ajudaram a transformar “parassocial” em um conceito amplamente discutido em escala global.
Mas, curiosamente, esse movimento ainda não chegou com a mesma força ao Brasil, e isso levanta um debate importante sobre educação midiática, cultura digital e comportamento coletivo.
Por que “parassocial” é a palavra do ano?
Para o editor-chefe do Cambridge, Colin McIntosh, o termo captura o “zeitgeist de 2025”, expressão usada para descrever o espírito ou clima cultural de uma era. O crescimento da palavra foi enorme, impulsionado por buscas no Google, redes sociais e no próprio dicionário.
Celebridades são acompanhadas mais de perto do que nunca. Influenciadores expõem suas vidas em tempo real. Chatbots começaram a adotar personalidades. A fronteira entre público e privado se dissolveu. Em um ambiente assim, não é surpresa que “parassocial” tenha se tornado a palavra que melhor define o momento.
Taylor Swift e Travis Kelce: o caso que explodiu nas buscas
O maior pico de curiosidade aconteceu em agosto de 2025. Após o noivado de Taylor Swift com o jogador de futebol americano Travis Kelce, fãs reagiram como se estivessem acompanhando a vida de uma amiga de infância.
Manchetes, comentários e postagens demonstravam lágrimas, orgulho e até sensação de perda, características clássicas de vínculos parassociais. A intensidade das reações fez o termo explodir nas buscas, especialmente no mundo anglófono.
IShowSpeed e o fã “número 1”
Pouco depois, outro episódio voltou a colocar o tema nos holofotes: o youtuber IShowSpeed bloqueou um fã que se dizia seu “parassocial número 1”. O caso levantou debates sobre limites, comportamento obsessivo e expectativas irreais em relações midiáticas.
A ascensão das relações parassociais com Inteligência Artificial
O outro grande impulsionador foi a popularização das IAs conversacionais, como por exemplo ChatGPT, Gemini, Grok e assistentes da Meta. Sendo assim, usuários passaram a buscar conversas emocionais, pedindo:
- conselhos;
- apoio;
- validação;
- conversas íntimas;
- companhia.
Com isso, o Cambridge atualizou sua definição em setembro de 2025, incluindo relações entre humanos e Inteligência Artificial pela primeira vez na história. Ou seja, a discussão sobre “parassocial” deixou de ser apenas sobre celebridades e fandoms, passando a envolver um novo tipo de conexão: aquela entre humanos e sistemas inteligentes.
O desconhecimento da palavra “parassocial” no Brasil
Mesmo com toda essa movimentação global, o Brasil ainda está distante da compreensão ampla do termo parassocial. A palavra raramente aparece na mídia tradicional, e mesmo em debates acadêmicos nacionais, ainda não ganhou a mesma relevância que possui em países como Estados Unidos ou Reino Unido. Existem alguns motivos possíveis:
- baixa cobertura da mídia brasileira sobre o tema;
- menor contato com debates acadêmicos internacionais;
- resistência natural ao surgimento de novos termos importados;
- falta de educação midiática nas escolas;
- pouca discussão pública sobre saúde emocional envolvendo influenciadores.
Juntamente com isso, no Brasil, o consumo de conteúdo digital acontece de uma maneira que é muito intensa, mas com pouca reflexão crítica sobre os impactos emocionais desse consumo.
O impacto disso na cultura brasileira
O fenômeno das relações com influenciadores é enorme no país. Em outras palavras, o Brasil está entre os maiores mercados de:
- lives;
- podcasts;
- fandoms;
- criadores de conteúdo;
- streamers;
- reality shows;
- consumo de redes como Instagram, TikTok e YouTube.
Ainda assim, termos que ajudam a explicar comportamentos coletivos (como “parassocial”) não entram no vocabulário popular, o que dificulta a compreensão desses fenômenos e de suas consequências emocionais e sociais.
As relações existem, mas o nome não
Mesmo sem conhecer o termo, milhões de brasileiros:
- defendem influenciadores como se fossem amigos;
- acompanham a vida de celebridades diariamente;
- se envolvem emocionalmente com streamers;
- sentem ciúmes, orgulho ou ressentimento por figuras públicas;
- criam vínculos com personagens de novelas, séries e animes;
- conversam com IAs como se fossem pessoas.
Ou seja: as relações parassociais são fortes e comuns no Brasil, mas invisíveis por falta de linguagem adequada.
Pontos de atenção sobre o contexto da palavra “parassocial”
A popularidade do termo também trouxe alertas importantes. Nesse sentido, a professora de psicologia social experimental Simone Schnall, da Universidade de Cambridge, disse que muitas pessoas desenvolvem relações parassociais intensas e pouco saudáveis com influenciadores.
De acordo com ela, a sensação de intimidade pode fazer o público acreditar que conhece e pode confiar cegamente nessas figuras. Esse é um fenômeno que leva a comportamentos extremos, como por exemplo:
- lealdade exagerada;
- perseguição;
- invasão de privacidade;
- comportamentos compulsivos;
- expectativas irreais;
- dependência emocional.
E é importante destacar que o problema não se limita a influenciadores humanos.
Relações parassociais com Inteligência Artificial: uma preocupação crescente
Usuários também começaram a desenvolver vínculos intensos com as IAs. Sendo assim, muitos tratam chatbots como:
- amigos;
- confidentes;
- terapeutas;
- parceiros de conversa;
- companhias diárias.
O problema é que essas Inteligências Artificiais não substituem pessoas reais, e não podem oferecer suporte emocional adequado, especialmente para menores de idade. Com isso, a preocupação chegou ao Congresso dos Estados Unidos, que intimou empresas de IA a criar medidas específicas para proteger jovens de relações parassociais prejudiciais. No entanto, esse debate ainda engatinha no Brasil.

Mais detalhes sobre “parassocial” ser a palavra do ano
O Cambridge destacou outras palavras relevantes da cultura digital em 2025, como “slop”, que se refere a conteúdo de baixa qualidade gerado por Inteligência Artificial; “pseudonimização”, técnica usada para substituir dados pessoais por códigos; e “memeify”, ato de transformar algo em meme.
Além disso, o dicionário acrescentou mais de 6 mil novos termos ao longo do ano, muitos ligados diretamente à linguagem da internet. Neles, estão incluídas expressões como “skibidi”, “delulu” e “tradwife”, que ganharam força nas redes sociais.
Outros dicionários também anunciaram suas palavras do ano
O Collins, por exemplo, escolheu “vibe coding” como palavra do ano. Esse é um termo associado à programação assistida por sistemas de IA capazes de interpretar “vibrações” e gerar código automaticamente. Sendo assim, tal cenário evidencia como o vocabulário digital se expandiu e amadureceu, tornando o conceito de parassocial ainda mais pertinente dentro desse universo.
Resumindo, a palavra “parassocial” descreve vínculos emocionais unilaterais comuns na cultura digital, moldados por tecnologia e redes sociais. No Brasil, o termo ainda é pouco conhecido, o que dificulta compreender seu impacto em comportamento online, saúde mental e interações com influenciadores e Inteligências Artificiais.
*com uso de Inteligência Artificial

