Anúncios falsos na Meta usam programas do governo para golpes

Os anúncios falsos nas plataformas da Meta voltaram a acender o alerta entre especialistas em segurança digital. Um estudo do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ) revelou que criminosos têm explorado programas e serviços públicos brasileiros para atrair vítimas por meio de campanhas fraudulentas no Facebook, Instagram e outras plataformas da empresa. 

A estratégia utiliza promessas de benefícios financeiros, programas sociais e serviços governamentais para convencer usuários a clicar em links maliciosos ou fornecer dados pessoais. Nesse sentido, o levantamento mostra que esse tipo de fraude faz parte de uma operação organizada, que se aproveita da ampla audiência das redes sociais para alcançar milhares ou até milhões de pessoas.

Juntamente com o impacto financeiro para as vítimas, essas campanhas prejudicam a confiança da população em serviços públicos legítimos. Sendo assim, os pesquisadores apontam que a quantidade de anúncios falsos identificados representa apenas uma pequena parcela do problema, já que a transparência limitada das plataformas impede uma visão completa da dimensão dessas ações criminosas.

Os anúncios falsos na Meta que usam programas do governo para aplicar golpes

O estudo realizado pelo NetLab/UFRJ identificou uma operação estruturada voltada à divulgação de anúncios enganosos que utilizam programas públicos brasileiros como isca para atrair vítimas. Entre janeiro e março de 2026, os pesquisadores localizaram 860 anúncios fraudulentos publicados por 152 páginas diferentes nas plataformas da Meta.

Segundo os especialistas, esses anúncios exploravam serviços conhecidos da população, utilizando nomes de programas governamentais para transmitir credibilidade e convencer os usuários de que poderiam receber benefícios financeiros. 

Em muitos casos, as campanhas direcionavam os usuários para páginas falsas que solicitavam dados pessoais e informações bancárias sob a justificativa de liberar supostos benefícios. A estratégia se aproveita da confiança da população em políticas públicas, aumentando as chances de sucesso dos golpes.

Uma estrutura muito maior do que aparenta

Os pesquisadores explicam que os 860 anúncios encontrados representam apenas uma pequena amostra de uma estrutura muito mais ampla. Isso acontece porque a Meta disponibiliza poucas informações públicas sobre publicidade, dificultando o monitoramento completo das campanhas.

Mais um fator preocupante é que um único anúncio patrocinado pode alcançar um número extremamente elevado de usuários. Assim, embora o levantamento contabilize centenas de anúncios, o impacto real pode ter sido muito maior, atingindo milhares ou até milhões de pessoas em todo o Brasil.

Vale ressaltar que os especialistas classificam esse cenário como parte de uma verdadeira indústria da desinformação, composta por grupos organizados que produzem, distribuem e renovam constantemente campanhas fraudulentas para escapar dos mecanismos de detecção. Além disso, essas organizações modificam elementos dos anúncios para dificultar sua identificação automática pelas plataformas.

Constatou-se a existência de anúncios falsos na Meta que usam programas do governo para aplicar golpes.
Constatou-se a existência de anúncios falsos na Meta que usam programas do governo para aplicar golpes. | Foto: DALL-E 3

Mais detalhes dos anúncios falsos na Meta

O levantamento revelou que o serviço mais explorado pelos criminosos foi o Valores a Receber, iniciativa do Banco Central que permite consultar recursos esquecidos em instituições financeiras. Esse programa apareceu em 345 anúncios fraudulentos. Na sequência, os golpistas utilizaram outros programas bastante conhecidos pela população:

Programas públicos mais utilizados nas fraudes

  • Brasil Sorridente: 230 anúncios;
  • Minha Casa Minha Vida: 67 anúncios;
  • Auxílio Gás: 62 anúncios;
  • Bolsa Família: 31 anúncios;
  • CNH do Brasil: 30 anúncios;
  • Carteira de Trabalho: 29 anúncios;
  • Desenrola Brasil: 19 anúncios.

Os pesquisadores observaram ainda que cerca de 26,3% dos anunciantes exploravam mais de um programa governamental simultaneamente. Isso é algo que aumentan as chances de convencer diferentes perfis de usuários.

Como os golpistas enganavam as vítimas?

Grande parte dos anúncios prometia dinheiro fácil, benefícios inexistentes ou serviços gratuitos que nunca existiram. Algumas campanhas afirmavam, por exemplo, que qualquer trabalhador poderia receber até R$ 12 mil liberados pelo governo.

Outras propagandas anunciavam falsos programas de cashback para usuários de cartões de crédito ou simulavam consultas gratuitas para benefícios públicos. Em diversos casos, após clicar no anúncio, o usuário era direcionado para páginas que cobravam pequenas taxas para liberar supostos valores ou realizar consultas falsas. 

Ainda que os valores cobrados fossem baixos, o objetivo era obter dados pessoais, bancários ou gerar lucro com pagamentos indevidos. Paralelamente, mais um recurso utilizado consistia em copiar a identidade visual de veículos de imprensa conhecidos e criar páginas com aparência jornalística, fazendo o conteúdo parecer legítimo.

Como funcionavam os anúncios falsos na Meta?

O estudo conseguiu identificar diferentes estratégias utilizadas pelos criminosos no intuito de aumentar a credibilidade das campanhas e também dificultar sua identificação pelos usuários.

Sites que imitavam páginas oficiais

Em aproximadamente 21,5% dos anúncios analisados, os usuários eram direcionados para páginas falsas que imitavam portais oficiais do governo. Ou seja, em 154 casos, os links levavam diretamente para sites desenvolvidos para parecerem oficiais. 

Já em outras 66 publicações, as próprias páginas do Facebook ou Instagram utilizavam nomes, logotipos e elementos visuais semelhantes aos utilizados pelo governo federal. Do mesmo modo, os criminosos também registravam domínios contendo palavras como por exemplo “oficial”, “gov”, “org” e referências a órgãos públicos, aumentando ainda mais a sensação de autenticidade.

Páginas recicladas e campanhas temporárias

Os pesquisadores descobriram que muitas páginas utilizadas nas campanhas praticamente não possuíam atividade orgânica. Esses perfis eram constantemente reaproveitados, alterando nome, foto e descrição conforme a fraude do momento. 

Uma mesma página podia inicialmente representar uma pessoa comum e, posteriormente, transformar-se em um suposto perfil oficial do governo. Tal reciclagem é algo que torna a identificação dos responsáveis ainda mais difícil.

Uso de inteligência artificial

Outro dado bastante preocupante envolve a utilização de inteligência artificial. Dos 860 anúncios analisados, 394 continham vídeos produzidos ou manipulados por IA. As campanhas utilizaram deepfakes de políticos, jornalistas e outras figuras públicas para transmitir maior credibilidade às falsas promessas.

Uma das manipulações mais recorrentes envolveu o deputado federal Nikolas Ferreira, cuja imagem apareceu em pelo menos 16 anúncios diferentes que estavam relacionados a golpes financeiros.

Em conjunto a isso, 146 anúncios utilizaram o recurso de criativo dinâmico da própria Meta, ferramenta baseada em inteligência artificial que cria diferentes combinações de imagens, títulos e textos para públicos distintos. De acordo com os pesquisadores, essa funcionalidade pode dificultar a fiscalização, já que versões diferentes do mesmo anúncio podem ser exibidas para usuários diferentes.

Impactos dos anúncios falsos na Meta

Mesmo que muitas campanhas fraudulentas permaneçam pouco tempo no ar, o estudo mostra que isso faz parte da estratégia dos criminosos. Em média, os anúncios permaneceram ativos durante 4,4 dias antes de serem removidos ou substituídos. No entanto, alguns casos chamaram bastante atenção.

Campanhas que ficaram semanas no ar

Quatorze anúncios permaneceram ativos durante mais de um mês. Um deles ficou disponível por 73 dias, demonstrando que determinadas campanhas conseguem escapar dos sistemas de moderação por longos períodos. Segundo o NetLab, isso evidencia dificuldades da plataforma em identificar rapidamente conteúdos fraudulentos patrocinados.

Uma rede internacional de golpes

Vale ressaltar que os pesquisadores identificaram ainda uma rede composta por 18 páginas administradas na China responsável pela publicação de 67 anúncios fraudulentos voltados ao público brasileiro.

Essas páginas promoviam golpes relacionados ao Brasil Sorridente, Bolsa Família e Valores a Receber, além de publicar conteúdos semelhantes em inglês e espanhol. O estudo aponta que esse cenário demonstra a existência de uma indústria transnacional da fraude digital, capaz de atingir usuários de diferentes países utilizando estratégias semelhantes.

Da mesma forma, os pesquisadores também alertam que esse tipo de vulnerabilidade pode representar riscos adicionais em períodos eleitorais, já que campanhas financiadas no exterior são proibidas pela legislação brasileira. A identificação de páginas administradas fora do país reforça a necessidade de maior fiscalização e transparência sobre quem impulsiona conteúdos destinados ao público brasileiro.

Lições a aprender com esse contexto dos anúncios falsos na Meta

O crescimento dessas fraudes demonstra que usuários precisam adotar uma postura cada vez mais cautelosa diante de ofertas aparentemente vantajosas encontradas nas redes sociais.

Priorize sempre os canais oficiais

Sempre que surgir uma promessa envolvendo dinheiro, benefícios governamentais ou programas públicos, a recomendação é consultar exclusivamente os canais oficiais dos órgãos responsáveis. Também é importante desconfiar de mensagens com senso de urgência, pedidos de pagamento antecipado ou links enviados por anúncios patrocinados.

Verifique o endereço do site

Mais uma medida essencial é verificar cuidadosamente o endereço do site antes de fornecer qualquer informação pessoal ou bancária. Pequenas diferenças na URL podem indicar que se trata de uma página falsa criada para roubar dados. Evitar clicar em links de anúncios suspeitos também reduz o risco de cair em golpes.

O papel das plataformas digitais

Ao mesmo tempo, especialistas defendem que plataformas digitais reforcem seus mecanismos de verificação, transparência e monitoramento para reduzir a circulação dessas campanhas fraudulentas. Nesse sentido, a combinação entre fiscalização mais eficiente e usuários bem informados é considerada uma das principais formas de combater esse tipo de crime digital.

Resumindo, os anúncios falsos continuam evoluindo com o uso de inteligência artificial e novas técnicas de manipulação digital. Por isso, manter-se informado é uma das melhores formas de evitar prejuízos. Dessa forma, se você deseja conferir mais conteúdos sobre segurança digital e aprender a identificá-los, continue acompanhando nossas publicações.

*com uso de inteligência artificial

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